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Um médico que lhe tocasse o ventre far-se-ia timorato. Era tal a situação que, se me permitisse uma exclamação, trataria de rogar com a insistência devida que permitissem os altos céus que os filhos da gentil Adelaide seguissem para algo menos certeiro que mais um aborto no habitual infortúnio da rainha germânica que foi engolida pelos arranjos reais para as bandas do Reino Unido. Isto cá escrevo no non plus ultra do volume de informações referentes à realeza de Saxe-Meiningen que me chegam na data de 10 de Dezembro de 1849, posterior à sua morte, à dela mesma. Como me comovo, você poderia pensar, tanto a ponto de apontar os fatos que do contrário gerariam nada que não enfado. Trata-se de uma superidentificação. Ou não, se isso significar uma mensuração equivalente à altura que se tem da melancolia. De fato, Sua Majestade - que nunca conheci e da qual assumo superficialidades que, no entanto, me parecem convincentes - aquiescia com o fado e se fazia alegre no conforto de uma confiança depositada no oráculo, mesmo que diminutos cadáveres rondassem a sua história sepulcral e um ventre se fizesse cansado durante o degelo da nevasca precedente. Se chorou pela primeira filha, pela segunda não haveria de ser diferente.
Pediu por um sepultamento simples, o seu, quando na sua vontade no testamento: “morro em paz e desejo ser carregada à fonte em paz e livre das vaidades e pompa deste mundo”*. O rei era conhecido por não ter modos elegantes, ser excêntrico (por assim dizer) e a rainha era uma mulher religiosa que deu à luz a crianças natimortas ou bebês que morreram curto tempo após terem nascido. O arcebispo a tinha em alta conta; disse “tal constância em afeto [a que demonstrava], eu acho, era um dos mais interessantes espetáculos que poderiam ser apresentados a uma mente desejosa em ser gratificada com a visão da excelência humana”**. Confesso que as forças, por vezes, não brotam necessariamente de dentro, de modo que há algo de extracorpóreo, de externo que às vezes me deve tomar para que assuma tal nível de pujança. (...)


* Retirado de Historyofroyalwomen.com
** Life of Her Most Gracious Majesty the Queen, Volume 1, de Sarah Tytler


P.S.: antigamente, ainda na falta da fotoimagem, os retratos eram feitos em pinturas. A figura do topo mostra um quadro-retrato pintado pelo escocês David Wilkie da rainha Adelaide e sua sobrinha Victoria que, posteriormente, iria ao trono.



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