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 Isto escrevo para mim mesma. Uma carta que endereço ao meu futuro agora que a realidade me chama pelo nome e eu chamo a realidade de peso suportável o bastante, um vislumbre que dá aos escravos da mente um machado de correntes, escravos que, por sua vez, constroem uma parede de ilusão em benefício da escravidão da mente.

1, 2, 3, o experimento prova-me errada. 1, 2, 3, a vida prova-me errada. 1, 2, 3, eu digo. Eu grito. [Eu não sei.] 1, 2, 3, sou finalmente real. Meu imaginar não me trai.

Eu me lembro, e novamente estou trancafiada. Minha teoria se torna minha vida. Eu não sou mais.

Nós nos encontramos de novo, minha amiga real e eu. Realidade e eu. E sou novamente.

“Não vire as costas”, diz minha velha amiga Realidade.

Eu não digo palavra. Eu digo seiscentos silêncios. Realidade retruca.

“Você nunca imagina como seria só me olhar nos olhos?”

Para isso encontro palavras.

“Eu não. Estou ocupada imaginando como será o futuro.”

Realidade dá-me uma pancada na cabeça. Tenho uma ou duas palavras a dizer. Aproximo-me da Realidade. Por um momento somos amigos íntimos de novo. Eu gosto de dizer que somos tão íntimos quando o meu imaginar permite que sejamos.

A Realidade diz: “Olhe.”

Eu desvio o olhar. Procuro a palavra “olhar”. Minha mente desvia-se. Não é um espelho que olho. Não vou a buraco algum para encontrar criaturas inesperadas, magnificentes.

Em meu sonho, sonho com a Realidade. Quando acordo vejo a Realidade. Converso com a Realidade. Tenho um vislumbre dela. Eventualmente, quando ela não pode notar, cegada como está por imagens de outros, eu a olho nos olhos. Eu vejo o meu passado. Ela irá às vezes me deixar ver o meu futuro. Para isso encontro palavras: “Não, não pode ser.”

Ela me ouve: “Quem está aí?”

“Sou eu.”

“Oh, você! E o que não pode ser?”

“Esse futuro que eu vejo. Talvez eu devesse escolher outro.”

“Oh, isso. Claro. Que fardos alternativos escolheria?”

“Eu mudaria o tempo. Faria com que tal peso viesse imediatamente e o encararia muito em breve.”

“Oh, isso”, a Realidade diz. “É o seu chamado. Viver.”

“Não gosto de esperar”, eu digo. A que a Realidade responde, “Todo esse tempo espero e você não me vê, é você que espera?”

O dia em que olho a Realidade nos olhos é o 6 de Julho. A energia acaba. Eu trago algumas velas. À luz de velas, tiro um pedaço de um bolo. É o meu aniversário. O tempo não é mais que fortuito; eu não intento que ele seja outra coisa. Algo desperta por dentro. Minha imaginação fala do que é real.

Realidade permanece silente então. Realidade diz seiscentos silêncios. Eu imagino. Eu imagino. Tenho uma teoria. Acredito que se silencia a Realidade quando ela começa a falar demais sobre seus próprios assuntos.

Quando me levanto, a cadeira está úmida. Foi um dia quente, quente. O corpo não conta mentiras. Vou direto ao quarto do meu irmão só para checar. Nosso cachorro moribundo, leishmanioso, está no tapete; ele respira ainda. Na sala de estar, eu convido a Realidade a se sentar e contar uma história. Ela conta a minha história. Ela sabe o meu nome. Pelo visto, eu sei o dela.

E o que ela escreve para si mesma? Uma carta para o futuro agora que sabe que eu a conheço e que me insulta de peso suportável o bastante, um vislumbre que dá aos escravos da mente um machado de correntes, escravos que, por sua vez, constroem uma parede de ilusão em benefício da escravidão da mente. Eu não me queixo. Desde os tempos de Jó já era chamado de nomes afins. 

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