ARTIGO AVULSO 📃 SOBRE “MONSTROS”, DE MARIA FERNANDA APUERO, E UM TEMA DELICADO

Monstros é um conto de Maria Fernanda Apuero em Rinha de Galos. Traz na história aspectos de duas pré-adolescentes, uma adolescente e um homem, por meio da narrativa de uma das pré-adolescentes. Remete-nos à questão da pobreza pela personagem Narcisa, a adolescente a quem o homem chama de “a doméstica”.

Narcisa tem 14 anos e trabalha na casa de uma família de classe média ou média alta. A mãe é uma voz ausente na narrativa, o que condiz com a narrativa de sua ausência no seio da família, como aquela que fica fora de casa a jogar cartas. O pai, o homem mencionado no conto, é mais voltado ao trabalho. Sua presença na narrativa é, a princípio, em se opor a que Narcisa durma no quarto das meninas, quando essas querem que ela durma ali pelo medo por causa dos filmes de terror que as meninas conseguiam locar na locadora de vídeo.

O terror, a referência a monstros, o medo, se misturam com uma narrativa que encerra pelo que, por alguns elementos do conto, podemos supor o abuso de Narcisa pelo homem. A questão do abuso vem atrelada aos aspectos do poder, da submissão, do segredo e do medo. Narcisa diz que devemos ter mais medo dos vivos que dos mortos. Isso ela reforça, repete, como se ela mesma tivesse o medo dos vivos (o medo do homem). E tem todo um segredo em torno do que ocorre, a que ela se submete ao fingir concordar com o homem, em que ela não deve dormir no quarto das meninas. O abuso é algo que não se conhece de imediato. As irmãs Mercedes e a narradora de quem não vemos um nome, mas que vemos como aquela que enxerga o que ocorre e narra, descobrem-no por ruídos que escutam ao irem certo dia ao quarto de Narcisa. O horror do filme que gera pesadelos se mistura ao horror de uma descoberta que causa, também, nojo. No dia seguinte, Narcisa já não mora mais ali. Primeiramente, exerceu-se o poder do homem sobre o corpo da menina, então o desligamento da “doméstica”, por conta do segredo descoberto, ou melhor, ouvido, visto por um vulto. No desligamento também estando o exercer do poder.

Tem-se a figura do monstro, do horror, em contraposição à desproteção feminina. E o que é ser mulher? Mercedes é a irmã mais tímida, diferente da outra. A irmã de Mercedes seria considerada uma “menina tão pouco menina, indomável”. Reflete a noção de que uma mulher deveria ser dócil. E a menina “indomável” questiona as freiras da escola. A menina “perguntava qual o motivo de darem arroz aos pobres enquanto elas comiam corvina” e provocava dizendo “que Nosso Senhor não gostaria disso porque ele fez os peixes para todos”. Provocação de menina pouco menina, porque indomável, e a quem as freiras mandavam “apagar todas as lousas do colégio, limpar a capela”. E provocação de menina que via coisa de gente grande na TV.

 


A linguagem comum dá lugar a um contraste pelo uso dos termos “almas díscolas” associado às freiras para se referir a meninas como a irmã de Mercedes, a narradora, o que destaca um contraponto entre as freiras, adultas, e a noção de menina, da narradora que fala sobre a palavra “díscola” como algo que “parecia com disco e com Coca-Cola”.

A regulação social falha; algumas fronteiras são rompidas, sejam de regras vigentes, do senso comum ou de um corpo. Houve um rompimento. Essa falha se dá no desenlace de um enredo em que estão as menores de idade Narcisa, Mercedes e a irmã desta, e os adultos, transitando entre escola, casa, locadora, onde o quarto mistura-se com o que é privado, com medos, pesadelos, segredos, lugares onde se conta uma história sobre o tornar-se mulher, desproteção e poder.

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